top of page
Screenshot 2024-03-27 at 11.29.16.png

Textos y podcasts sobre cinema documental

(4) Pesquisa fílmica AS PONTES; O corpo que cai

  • Foto do escritor: Davit Giménez
    Davit Giménez
  • 1 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 20 de out. de 2025


Nas últimas semanas, uma imagem tem atravessado o processo do filme: árvores caídas.

Em uma caminhada pelo cerrado, vi troncos inteiros tombados, expostos ao tempo. Alguns ressecados, outros ainda com raízes presas ao solo. Comecei a registrar essas imagens com a câmera, sem saber exatamente por quê. Só depois, revendo os arquivos, entendi que aquilo tinha relação com meu pai.

Tenho guardado áudios dele falando do hospital, descrevendo internações, exames, e o cansaço físico de um corpo que já não responde. A fragilidade dele tem sido difícil de acessar à distância — e talvez por isso tenha buscado uma imagem concreta que pudesse dar forma a essa sensação.

As árvores caídas são um retrato silencioso daquilo que não se sustenta mais. Têm peso, tempo, história — mas estão fora de pé. Elas se tornam uma imagem para pensar o desgaste, o declínio, o fim de um ciclo. E filmar essas árvores tem sido, de alguma maneira, uma forma de me aproximar do corpo do meu pai, sem precisar encará-lo diretamente.

Há também uma dimensão coletiva. Muitos moradores relatam que, nos últimos anos, grandes árvores da região começaram a morrer. A hipótese mais forte é de que o mineroduto que atravessa Conceição do Mato Dentro tenha rebaixado o lençol freático, afetando as raízes. O impacto é subterrâneo, mas atinge em cheio aquilo que parecia sólido.



Filmar uma árvore caída é diferente de filmar uma árvore cortada. A primeira fala de um tempo que chegou ao fim. A segunda, de uma ação externa. As imagens do meu pai no hospital e as árvores no cerrado se conectam nesse ponto: o colapso como parte de um ciclo inevitável — e ainda assim doloroso.

Talvez o filme esteja tentando entender isso: como lidar com o que cai sem forçar a permanência. Como filmar sem interromper o tempo daquilo que termina.




Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page