O colpaso da imagem
- Davit Giménez

- 31 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Durante muito tempo, a imagem foi usada como prova. O surgimento da fotografia, no século XIX, consolidou a ideia de que aquilo que era registrado diante da lente carregava um valor de "verdadeiro".
A imagem oferecia uma espécie de validação do mundo: pessoas, animais, paisagens, rituais e acontecimentos podiam ser fixados, guardados e compartilhados como evidência de sua existência. O cinema documental nasce também sob esse impulso — o desejo de preservar aquilo que, uma vez filmado, não poderia mais ser negado. Registrar era uma forma de confirmar.

Com o tempo, esse uso da imagem foi se transformando. As vanguardas artísticas e os movimentos do cinema experimental questionaram o lugar da objetividade e passaram a usar a imagem como linguagem. Já não bastava registrar o mundo — era preciso interpretá-lo, desmontá-lo, reconstruí-lo. A imagem passou a expressar não apenas o que se vê, mas o modo como se vê. No documentário contemporâneo, essa mudança é visível: há uma busca por formas que expressem o mundo interno do realizador, seus afetos, suas dúvidas. A imagem deixa de servir apenas à realidade externa e passa a espelhar os territórios subjetivos.
Harun Farocki
“Uma imagem não mostra aquilo que mostra, mas aquilo que a ela falta.”
Mas vivemos agora a época da abundância visual. A imagem perdeu sua raridade. A todo momento somos atravessados por fotografias, vídeos, algoritmos que aprendem nossos desejos. E agora, com a chegada da inteligência artificial, a imagem não precisa mais de mundo algum para nascer. Pode ser gerada sem corpo, sem lente, sem tempo. Basta uma descrição. A imagem gerada por IA nasce da intenção total, da simulação exata. Não há desvio, nem falha, nem surpresa. E o que o cinema documental mais preservava — o instante inesperado, o gesto involuntário, a quebra da lógica — desaparece diante de uma imagem que nunca escapa do controle de quem a programa.
Com a proliferação de imagens geradas por inteligência artificial, entramos num novo estagio; a imagem passa a servir não à observação, mas à fabricação.
Isso nos desloca?
Qual é o lugar da experiência, do tempo compartilhado, do acaso, do erro?
Diante do excesso de imagens possíveis, talvez o desafio agora seja encontrar, novamente, o valor do gesto que observa, que espera, que escuta.





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